FOLHAS

MEU FASCÍNIO PELAS FOLHAS É IGUAL O PELAS PEDRAS. VOU TENTAR AOS POUCOS COLOCAR AQUI ESSA MINHA ADMIRAÇÃO, AO TEMPO, À HUMILDADE, AO SILÊNCIO E A PRESENÇA DELAS EM MINHA VIDA!

terça-feira, 3 de maio de 2011

A curva de um looping!

Até agora estou ‘tentando’ entender o que aconteceu...
A belíssima gabiroba que me fascinou logo na primeira vez em que cheguei até aquele lindo lugar, em plena Serra do Mar, fazendo com que eu ficasse arrepiada, estonteada e procurasse a ‘estória’ da árvore, bem... ela rachou-se ao meio.
Sim... logo depois que resgatei a ‘estória’ (em maio de 2011), que os olhos de todos meus amigos se voltaram para a árvore, que o mistério a respeito da longevidade e da beleza dessa gabiroba veio à tona, em uma noite de lua cheia, há poucos dias (junho de 2011), estalou feio, rompeu-se ao meio, quebrou.




Foi um ‘Deus nos acuda’ para todo lado. A estrada bloqueada pelos enormes galhos que há séculos tocavam o céu com suas bromélias e orquídeas, agora, beijam o chão.  Cortar os galhos para liberar a estrada foi única solução.
Não consigo entender este desmando da natureza. Fiquei um bom tempo contemplando metade da árvore caída e a outra, imponente, dizendo ao vento ‘tudo bem... estou viva’.


Algumas surpresas não foram por conta do acaso: no centro da árvore um buraco enorme ficou exposto; um pedaço da pesada madeira foi artisticamente trabalhada pelo Valdinei: ‘Olha dona Rita, estou terminando esse oratório para colocar uma santinha’.


Na vida não conseguimos controlar todas as variáveis e, ainda creio, que há muitas coisas debaixo do céu que nossa vã filosofia desconhece. Já estou no tempo em que algumas explicações não são mais necessárias. Para mim bastou ver um oratório feito do cerne da gabiroba, lugar onde será entronizada Nossa Senhora Aparecida. 


Do buraco, no centro da árvore partida,  dizem, saiu o lobisomem que há quase dois séculos estava enterrado, ou, quem sabe, saiu o homem purificado de uma maldição e agora vive errante pela mata atlântica.
Um novo ciclo começa. Eu, sem nem mesmo imaginar que um dia a árvore pudesse partir ao meio, dei o título a minha postagem, aqui no blog, de ‘curva de um looping’, deixei escrito no que acredito:  ‘Se tentarmos voltar ao espaço do tempo a curva se dobra, fazendo um looping, na verdade a inconsistência é o looping do tempo, o universo tem lá as suas lógicas’. 

(todo tempo em que estive, ali, fotografando... um enorme cão cheirava o enorme pé de gabiroba)

Sim... eu tentei voltar à estória e a curva foi traçada com ventos fortes que fazem a travessia de Caronte.
Felicidades e a paz!

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora. 
Junho de 2011




As árvores sempre me fascinam. Eu sempre estou à cata de alguma 'estória' sobre árvore, em livros, revistas, jornais, conversas, tv ou rádio. Algo dentro de mim clama por isso... desde que me entendo por gente... se bem que ainda não me entendo!

Creio que nessa busca incessante há muita relatividade com meu pensamento. No caos nasce a luz. Você pode quebrar um ovo, mas nunca mais poderá ordená-lo novamente, mesmo unindo cada pedacinho dele. A desordem das coisas é algo natural. Se tentarmos voltar ao espaço do tempo a curva se dobra, fazendo um looping, na verdade a inconsistência é o looping do tempo, o universo tem lá as suas lógicas.

E é lógico que eu não quero retornar algo que foi destruído, apenas recoloco aqui uma história que me foi contada no domingo, dia primeiro de maio, lá no sítio Nhá Chica.


Vamos por partes.

Primeiro... desde sempre recolho fragmentos históricos, ou devo dizer mesmo... 'estóricos' sobre árvores. Segundo... foi há quase um mês, procurando outro caminho para chegar ao sítio, andei mais 10 km por uma estrada que ainda não conhecia, dessa forma cheguei ao entroncamento que dá acesso ao Nhá Chica por outro lado. Terceiro... foi quando eu avistei a tal árvore. Em um universo paralelo algo sempre grita dentro de mim quando vejo algo que precisa ser registrado. Pulei dentro do carro. Exclamei em voz alta: ‘esta árvore tem estória’! Quarto... parei na casa de Lena e Antônio, amigos de pouca data. Sei que Antônio teria uma explicação para meu sexto sentido. Lena não quis falar no assunto, como ainda não o fez até hoje, Antônio me olhou ressabiado, sem saber se falava ou não. Ficou quieto. Eu insisti que aquela árvore tinha uma 'estória' e que eu precisava saber.

Quinto... foi domingo passado, primeiro dia de maio, depois de levantar o Mastro de Nossa Senhora das Graças no sítio, foi só aí que Antônio resolveu contar a 'estória'. Isso porque eu aticei a curiosidade de minhas amigas que ali estavam, na deixa, conduzi Antônio para uma roda de prosa e, na hora certa, perguntei a respeito da árvore.

                                  Antônio ajudando a levantar o Mastro e soltando foguete.

 Daí por diante foi uma 'estória sem fim'... disse ele que é fato verídico, contado pelo pai dele que por sua vez ouviu do avô de Antônio. Isso há muitos e muitos anos. Foi certa feita, período em que as pessoas que moravam ali nas redondezas da Várzea, assustadas, não saíam à noite por causa de um animal que comia o gado. De quando em vez, ouviam um uivo sonoro e vibrante cortando a madrugada. Depois era silêncio mortal. Nem os sapos coaxavam, nem a coruja piava e os grilos calavam-se. Podia-se escutar até mesmo o crepitar da chama de uma vela, por causa do silêncio que se instalava nas redondezas.

Até que certo dia os homens se uniram para pegar o tal bicho louco. A paz precisava ser pelo bem e, não, pelo mal. O silêncio tinha de ser obra da alegria e não do desespero. Os homens saíram juntos, cada um com um lampião ou lamparina, uma espingarda ou um facão, um bentinho costurado com reza de Credo para fechar o corpo, alguns levavam uma cruz de madeira pendurada em cordão fiado em algodão. As mulheres ficaram em casa, em oração.

Saíram em noite de Lua branca, volumosa, estonteante. Rumaram para o pasto. O uivo gélido cortou a noite, os homens continuaram sua caçada. Juntos, o medo desapareceu... mas, o tal bicho apareceu logo na primeira curva, longe, visível. Os estampidos de fogos ecoaram pelo morro, não foi só um tiro, vários deram conta de deixar aquele enorme cão caído na curva.

Chegaram de mansinho, ainda apontando armas. Foram tomados de uma surpresa tremenda, incrédulos olharam o corpo inerte e ensangüentado, de um homem jovem e forte. O levaram até a estrada principal e, ali, em lugar de destaque aos passantes, enterraram o tal homem.

Ao lado do túmulo nasceu um pé de gabiroba. A melhor gabiroba que alguém pode comer, doce como um mel. A árvore tomou corpo em pouco tempo, ficou grande, criou pelos.

Dizem desta estranha árvore que as mulheres que ali sentam à sua sombra logo arrumam marido. Escutei o relato de Agnaldo que confidenciou o segredo de uma velhinha que de vez em quando vai até essa árvore e a beija. Um dia perguntou à velhinha o motivo dela fazer isso... ela respondeu que foi ali que conheceu seu primeiro namorado, o amor da vida dela, seu marido.

Se a 'estória' é mística, folclórica ou verídica não me cabe averiguar. Apenas, todas as vezes que passo pela árvore, fica dentro de mim a sensação de abandono, de socorro, de oração e de suspense.

                                   Pé de gabiroba, dizem que tem mais de 200 anos... dizem...

Minhas amigas ouviram toda esta 'estória' pela boca de Antônio, homem que conhece os dizeres dos antigos, que leva a sério as tradições e que tem muitas e muitas outras 'estórias' para contar.

Eu a coloco aqui, em fragmentos, como resgate de um tempo em que as pessoas se uniam em prol do bem comum. Bendito tempo!...

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.
Maio de 2011



sábado, 19 de fevereiro de 2011

HERANÇA

Hoje, em terras das Gerais, no aconchego familiar, na casa que há quase um século pertence à família, recebi de presente da minha mãe algo que me emocionou. Uma herança. Só ela para me entender, saber meu gosto das coisas, para motivar meu dia. Me levou até o quarto onde há de tudo um pouco, anexo à casa. Digo que lá é o baú dos guardados. Foi lá que minha mãe me entregou um fragmento lúdico da Ritelisa de muitos anos. Olhei e vi tudo que precisava. Colhi o presente com alegria. Coloquei-o em meu carro e viajei mais de cem quilômetros pensando e, de vez em quando, olhando para uma fresta do tempo.
A casa onde meus pais moram é onde minha mãe nasceu, onde eu e meus irmãos nascemos. Lugar de destaque em minha memória. Sempre que vou para lá me encontro em um ninho, no imenso oceano do aconchego. Aproveitei a sensação gostosa que fluía de minha alma para então analisar o que ia fazer com meu presente.
Quando cheguei em casa, fiquei mais tempo do que o do costume no carro, já na garagem. Só olhando minha herança. Depois, sentindo que o porteiro estava a minha espera no hall do elevador, tive mesmo de sair do carro. É claro... levando meu presente nos braços. Que logo foi notado e, gentilmente, Adriano abriu a porta do elevador para que eu pudesse passar com uma enorme e velha janela de madeira.
Coloquei meu presente em cima da cama e fiquei contemplando meio século de existência.
Resolvi aproveitar o envelhecimento natural e desenvolver uma pátina tornando a janela uma obra digna de ser vista. Forrei o chão do quarto com jornal. Deitei a janela com cuidado e comecei a lixá-la com calma, carinho, persistência e dedicação. Enquanto a lixa retirava a parte mais grossa da tinta, as vivências foram revisitadas a cada movimento, a cada fragmento que se soltava daquela janela, como se fosse poeira da vida. Ali estava eu... lixando a antiga janela do meu quarto. A que me dava muito trabalho para lavar, secar e, ás vezes, até mesmo pintar. A tinta velha, grossa, escamada, me levou ao passado. Cada poeira me dizia que sentimentos não são explicáveis, são vividos. Que se ficarmos olhando muito para trás acumularemos poeira. Compreendi que para seguir em frente é necessário abrir a janela e renovar o ar do ambiente.














Lembrei-me do meu antigo quarto... um quarto que agora acho tão pequeno e, no entanto, sempre foi enorme nas minhas lembranças. Cômodo onde dormiam minha avó Pepa, minha irmã Letícia e eu. E, certas vezes, em alguns anos, ainda cabia alguma prima que ia estudar na cidade. Esse quarto era mágico, onde as camas eram estreitas e coladas uma na outra. Onde havia somente um pequeno guarda roupa, desses antigos e sem divisórias. Um criado mudo, em cima uma lata velha de biscoito de Jacareí. Era só. Mas, esse só era um buraco sem fundo. Ali tudo cabia. Meus sonhos, minhas dúvidas, minhas realizações. Meu sonho de escritora, contado somente para Emília (essa mesmo... a do Lobato), que morava em uma caixinha embaixo de minha cama, ninguém via essa caixa (ponto para mim), meu segredo – ela existia somente na minha imaginação. Em um quarto onde os segredos não cabiam, esse era meu triunfo.

Minhas dúvidas eram dissipadas pela minha avó. Como era minha madrinha de batismo me proporcionava uma atenção especial, ficávamos horas e horas conversando. Me ensinou a fazer crochê, a rezar o terço, mesmo que o Credo fosse mais em italiano que em português, aliás, como boa italiana que era, gostava de um macarrão ao sumo. Minha avó tinha um jeito peculiar de ver a vida. E... olhando essa janela, agora, revi a figura magra de uma mulher que era a fortaleza em pessoa. Olhos castanhos, cabelos grisalhos e compridos, sempre em coque, com muitos grampos, rosto enrugado pela vida, blusa branca de algodão, saia de tira de amarrar na cintura... eram duas, uma amarrava na frente e a outra atrás. Chinelos de pano para toda obra. Uma bengala que a acompanhou nos últimos anos. Minha avó faleceu quando eu tinha 13 anos de idade. Tenho saudade dela.  A Sá Pepa eu quase não sei... mas, a Vó Pepa eu conheci bem em minha existência de menina de cabelos compridos, sempre em trança, magra demais, pequena e franzina que aprendeu a ver a vida através de uma janela, que eu sempre deixava aberta. Só assim sentia o cheiro das flores no corredor lateral da casa, só assim podia sentar-me no parapeito da janela e ficar conversando com as amigas. A janela, algumas vezes, emperrava, não subia ou não abaixava. Era questão de umidade no ar e, é claro, a gente precisava fechar a janela quando ameaçava chuva... por várias vezes ela não fechava. Era daquela janela de sistema guilhotina, com duas borboletas que seguravam a parte de cima. Por anos somente uma borboleta funcionou, assim a janela ficava pendida. Isso tudo agora me traz um sentido maior. Para que haja equilíbrio é preciso que duas peças funcionem corretamente, em toda parceria essa lei é vigente. Se um lado trava, o corpo todo desequilibra.


Depois de bem lixada, com uma pátina natural, sem precisar de retoques, resolvi o que ia fazer com a janela. Sou previsível. O que eu gosto eu gosto e anuncio isso sem medo de ser feliz. Meus filhos, netos e amigos sabem o quanto gosto de folhas secas, ainda mais as de plátinos. Sempre tenho uma aquarela, uma foto, uma escultura, uma dobradura ou até mesmo uma folha seca de plátinos em casa. Basta abrir uma gaveta. Achei tudo que precisava. Não me contive, recortei, colei e me deliciei em fazer arte.

Meus Retalhos de Outono estão agora emoldurados em uma janela. Uma janela especial, resgatada para minha compreensão do todo, do que deixamos encostado quando renovamos o ambiente. Em uma reforma não há trocas, eu não troquei uma janela por outra. A janela de minha infância e juventude é essa, nunca foi e nem será a outra. Essa, agora eu a tenho comigo, segundo meus padrões de memória, na primazia de meus sentimentos lúdicos e pueris... aquela Ritelisa não volta, apenas em um momento a encontrei na poeira da tinta. Se foi.

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.

domingo, 3 de outubro de 2010

CAMINHADA

Sempre gostei de ler CAMINHADA de Hermann Hesse, essa semana tirei-o da estante e fiz dele meu livro de cabeceira. Tantas recordações da primeira vez em que o li, e o quanto ficou impregnado em mim. Tanto que em uma das minhas primeiras exposições de fotografias digitais em São José dos Campos, citei junto à foto de uma árvore uma frase inerente desse livro. Mas, hoje, quero falar mais do que uma frase. Começo pela vida de Hermann Hesse. Escreveu CAMINHADA pela razão simples do que fazia... caminhava!... e não era por um pequeno lugar... era pelo mundo. Hermann Hesse era filho de missionários que foram para a Índia pregar o Cristianismo. Dentro dessa doutrina, com esse norte de seus pais, entrou para o seminário, para encontrar a resposta de suas divagações, para caminhar pelas verdades. Então, não as encontrando, fugiu do seminário, foi em busca de outra Teologia, do sentir Deus em si. “Na verdade toda sua vida foi uma série de fugas, pois a sua rebeldia atingiu os pontos nevrálgicos das estruturas sociais” , refutou a casa paterna, a educação escolar, a teologia ensinada nos seminários, a vida burguesa, a violência e o nacionalismo exagerado.

                                      Aquarela feita por Hermann Hesse.


Sempre apontado como solitário, na verdade, como ele mesmo escreveu: sua fortaleza era a solidão. Nessa solidão ele tinha bons companheiros, um caderno para suas anotações de viagem, outro de desenho e uma mochila. Era tudo que precisava para suas anotações do corpo e da alma. Para isso não foi necessário um escritório, uma biblioteca ou um quarto de estar. Só precisou caminhar, na íntegra, visualizar, conviver, escutar. Às vezes somos escritores e doutores do saber dos livros, do que lemos, do que vemos na TV, das revistas e das músicas eletrônicas. Porém Hermann Hesse precisava tocar fisicamente, sentir o cheiro, ás vezes (poucas vezes) conversar, escutar os passarinhos e o vento, rir alto, chorar baixinho, deitar na grama, abraçar uma árvore, dormir ao relento, nadar no rio, comer uma fruta colhida no pé. Tudo isso sem que as terras fossem suas, sem que o itinerário estivesse traçado, deixando-se levar pelo destino. Sem rancores ou desesperos. Para ele bastava apenas a inquietação a respeito de Deus. Queria encontrar Deus nas coisas simples, e não foi nas aulas de Teologia que O encontrou. Por isso sua alma pediu algo mais... e ele teve a coragem de se despir dos valores terrestres para esse encontro. Teve momento em que, no alto da montanha, não soube que rumo tomar, sabiamente foi até a nascente d’água, ali colocou seus pés, e esperou a resposta. Logo à sua frente aquela água se bifurcava e corria para ambos os lados, descendo pela encosta do morro. Dali de cima, com os pés numa pequena nascente, ele pode sentir a água descendo o desfiladeiro, cortando o vale, passando pelas aldeias, cidades, e mais adiante... tornando-se oceano. Deixou escrito: “A bela e antiga parábola santifica meu instante. Também a nós, viajantes, qualquer caminho conduz para a casa” .

Ali em cima sentiu a devastação. Lugar ermo onde não existiam árvores, nem mesmo arbustos. Só pedras. Ele era jovem. E os jovens precisam mais ainda de quem fale com eles. As árvores nos falam através da cantiga do vento e da chuva mansa das folhas. Mas... e as pedras?! As pedras falam duramente, elas ditam palavras de ordem, elas quando falam são como estiletes abrindo a carne e, no melhor delas, friccionam palavras purgativas que rompem abscessos com dor latente. Um dia falaremos sobre as pedras, as drummondianas, as coralineanas, as da aleluia e as nossas. Hoje, há um sopro de aventura em Hermann que nos faz mais felizes que as pedras. É a vontade de estar com as árvores. Desceu a montanha, atravessou o vale e chegou até elas. Creio que devo colocar na íntegra alguns comentários de Hesse a respeito delas:


                                   Aquarela feita por Hermann Hesse.

“As árvores sempre foram para mim os oradores mais convincentes. Eu as venero entre suas famílias e povos, as florestas e os bosques, mas, ainda mais, as adoro quando estão sós. Então são como seres solitários...” – comparou Beethoven e Nietzsche às árvores isoladas, sós. Árvores sagradas que “em suas copas cicia o mundo, suas raízes jazem no infinito. Solitárias, elas não se perdem, senão com toda a força de seu ser procuram a única meta, preencher a sua própria lei desenvolvendo suas formas e se auto-representando. Não existe nada mais santo, mais exemplar do que uma bela e forte árvore” . Hesse viu a divindade vestida em casca, pulsante em seiva, coroada de folhas, abraçada por galhos. Tanto que fez questão de destacar em aquarelas, árvores nas paisagens dos lugares por onde passou, em apenas uma delas não há árvore, é a do capítulo “A Aldeia”, onde o que suporta o espetáculo são as edificações feitas pelo ser humano. Mas, em todas outras ela comparece, afinal... “árvores são relíquias. Quem sabe como falar-lhes, ouvi-las, esse conhece a verdade. Elas não pregam ensinamentos e receitas, pregam isoladamente a primária lei da vida” . Questiono-me nesse momento: o que é essa tal primária lei da vida? O que Hermann Hesse quer me ensinar? Ele estava à procura dessa lei, e pelo que entendo... a encontrou. Lei primária deve ser viver do amor para o amor. Sem traçar planos, sem levar bagagem, sem julgar, sem destruir, sem se enaltecer... e sem criar barreiras. Quando a gente cria barreiras, nos acomodamos, porque podemos dizer, a partir daqui sou eu, a partir daí é você!... não podemos ocupar o mesmo espaço.

Uma árvore divide seu espaço com os pássaros, com as parasitas, com outras plantas, com insetos e animais de pequeno e grande porte. Isso é lei primária? Seremos capazes um dia sermos assim?

O mais emocionante de a Caminhada de Hesse é quando ele descreve a noite. Disse que as horas noturnas aparecem iguais nostalgias, pelo simples fato dele, nesse momento, ouvir as árvores sussurrarem. Ele se põe a escutar a essência dessa saudade, que não seria a fuga do sofrimento, mas o querer de uma pátria. Só que há pátrias que ainda não existem fisicamente, só as encontramos dentro de nós, as que criamos. Algo impalpável para a matéria, e aconchegante para o espírito. Talvez nossa casa, nosso primeiro lar. Hesse aprofunda-se na nostalgia: “É a saudade que nos guia para casa. Todo caminho leva para a casa, qualquer passo é um nascer, um morrer, qualquer sepultura uma mãe” . Porque a nossa ‘casa’ está dentro de nós, seja lá aonde estivermos, podemos matar o que há de errado e fazer nascer o que é bom. Quem assim se vê consegue olhar a noite com olhos iluminados. “E assim, quando à noite sentimos medo de nossos pensamentos infantis, que a árvore cicia. As árvores têm pensamentos extensos, calmos e de fôlego comprido, da mesma forma que sua vida é mais longa que a nossa” – dessa maneira Hesse ouviu as árvores e ainda mais, nos ensinou que ao aprendermos a ouvi-las, saberemos que elas são muito mais sábias do que nós. Sua conclusão é fenomenal, não precisamos ser árvore, precisamos ser, sim, nossa própria pátria, desde que ela seja FELICIDADE.

*Referência bibliográfica: HESSE, Hermann. CAMINHADA. Editora Record, Rio de Janeiro - RJ, s/d, p.19, 59, 60 e 61.

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

OS PACIFISTAS DA HUMANIDADE

Onde estão os pacifistas da humanidade? Em quais estrelas eles se escondem?
Estou à procura dessas respostas. Tento me enquadrar como ‘pacifista’ e concluo que preciso ousar. Isso mesmo... na época da globalização precisamos ser mais atirados. As mensagens chegam com mais freqüência, os assuntos se diversificam, as polêmicas duram alguns dias somente.
Somos bombardeados com uma enorme gama de informações e só algumas conseguimos reter e poucas resolver. A fadiga da informação é a doença do século. Por isso peneiro minhas leituras e norteio minhas decisões para o que realmente precisa ser solucionado.


Mas há algumas questões que me intrigam. Todos sabemos dos testes nucleares, dos dissabores entre as religiões e os terrorismos no Oriente Médio. A guerra fria acabou, a ditadura está dormindo (de vez em quando acorda) e o tratado de paz permanece (de vez em quando dorme). Fico pensando em Jean Henri Dunant, esse maravilhoso pacifista criador da Cruz Vermelha. Em viagem à Roma viu a Batalha de Solferino e dali tomou outro rumo – foi salvar vidas! Isso em 1859. Imagine o que ele faria hoje com toda tecnologia que temos... Sei que às vezes é preciso estar diante da fervura para tomar conhecimento de que a água também pode queimar. Dunant ganhou o prêmio Nobel da Paz. E, Alfred Nobel, por ter criado a dinamite, deixou sua fortuna para recompensar os pacifistas da humanidade, mas alguns como Dunant não ficaram com o dinheiro, sua ideologia de paz foi germinada em consciência tranqüila, algo que não tem preço... morreu pobre e feliz.

A paz depende de cada um de nós! Hoje mais do que nunca. Não é perda de tempo reunir pessoas e filosofar sobre os caminhos da humanidade. Os momentos ‘perdidos’ são os mais bem empregados. Newton perdia seu tempo embaixo da macieira, Galileu perdia o tempo olhando os navios na linha do horizonte, Santos Dumont perdia o tempo fabricando e empinando pipas, Beethoven perdia o tempo regendo o vento no bosque, ao cair das folhas.
Perder o tempo em conversas rende bons resultados. Se sozinhos podemos pensar em tantas coisas boas, juntos planejaremos um desfecho pacifista para o mundo globalizado. A enorme teia mundial será para agregar e não para destruir. Façamos nossa parte.

Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e jornalista.
Crônica publicada no Jornal Valeparaibano em 2007.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

HESICASMO

Na cidade de Goiás pude aprofundar-me no hesicasmo. Não foi à toa que encontrei um anacoreta, sim... posso chamá-lo de anacoreta. Me reencontrando em cada pedra dos becos do Cisco busquei minha identidade religiosa, os mistérios que habitavam em meu interior, os que me foram fantasmas por muitos anos, foram desvendados em uma tarde, ao conversar com Padre Pedro. Na verdade Pedro de Recroix, nascido nas matas dos Pirineus franceses, na década de 50 do século passado. Veio para o Brasil em 1961. Encontrou seu canto e recanto na cidade de Goiás, ajudou a construir o Mosteiro da Anunciação do Senhor. Escultor nato, suas obras estão espalhadas pelo mundo, mestre no entalhe, eu amava olhá-lo com suas ferramentas (a maioria inventada por ele) esculpindo seus poemas visuais em madeiras de lei.

Mestre intuitivo, foi ele quem me introduziu na arte da contemplação. Foi em 2003, no Mosteiro, num domingo, me deu uma aula sobre o hesicasmo. A arte de respirar em oração. Me recomendou a leitura de O Peregrino Russo, o qual fiz com voracidade. Em três dias. Depois devorei todos da série verdinha, da ‘a oração dos pobres’, foi tudo de bom. Com alguma bagagem sobre o assunto fui conversar com padre Pedro. Ele me ouviu em silêncio. Me passou o livro Terapeutas do Deserto, o li e reli durante dias. Algo dentro de mim estava mudando, em minha respiração, em minha compreensão, em minha rotina. Foi quando padre Pedro me alertou: ‘agora minha filha, sua oração vai ser compassada com a respiração... diga ao inspirar e expirar: Jesus tende piedade de mim’!

Não sei explicar o fenômeno, mas saí dali com a certeza de que iria achar a resposta para aquele ensinamento. Fui para uma feira de livro no salão paroquial, encontrei o que precisava: Escritos sobre o Hesicasmo, de Jean-Yves Leloup. Levei-o para casa. Deitei-me na rede e me permiti a leitura contemplativa. Com o passar dos dias fui fazendo todas as etapas da oração hesicasta. Tracei meu Deserto. Tranquei o portão, desliguei os telefones, apaguei as luzes, nem liguei o computador. Me presenteei com uma entrega total ao ver e ouvir - sem falar. O silêncio de Deus impregnou-se em mim. A cada dia ficava quieta em casa, sem me importar com o mundo, eu era o NADA, precisava me alinhar com o Universo Divino- o TUDO.

Entrar no ritmo de Deus exige paciência. Foi minha primeira batalha... agüentar o silêncio de Deus. Aprendi que a gente não pode fazer silêncio, pelo simples fato dele já existir. Procurava a santidade e sabia que na etimologia hebraica santo quer dizer ‘aquele que se comporta de outra maneira’, como eu fazia aqueles dias, mesmo que apontada pelos amigos e familiares. Não me importei, foi minha segunda vitória. A terceira etapa foi me equilibrar na oração perene: o Kyrie eleison – Senhor tende de piedade, procurando minha aphateia, meu estado de pureza. Desenvolvi todas as fases, passei dias meditando com a montanha Vermelha, me orientando com uma singela flor, escutando a água da fonte, cantarolando com as pombas em cima do telhado do vizinho. Foram dias, semanas e meses. Até que um dia, minha respiração despertou em Kyrie eleison, fluiu normalmente, sem forçar, sem impor. Não sei e não posso explicar, creio que cada um cria uma singular identidade meditativa. Minha felicidade ficou marcada em madeira Pau Brasil, com um coração de pedra vermelha.

Depois de seis meses saí em busca de algo maior. Fui ver padre Pedro. Ele sorriu e me ouviu, quase não falou. Já sabia que isso condizia com os hesicastas. Também sabia que ele vivia isolado, em uma cainha mais ao alto, no mosteiro, entre as árvores. Ali no mosteiro, em seu atelier tinha um poder maior, o dom artístico. Ao me acompanhar até o portão, no caminho pegou uma das folhas no chão, olhou-a, me disse que a vida só tem sentido quando somos folha, passamos pelas estações do nascimento, juventude, maturidade e velhice, ao chegarmos no outono devemos cair suavemente, aproveitando a brisa, dando adeus à arvore; ao chegar ao solo, em pleno inverno, adubaremos o solo, para que possam germinar as sementes. Lembro-me bem, que naquela época eu entendi todo ensinamento.

Mas agora eu passei pelo ensinamento. Estive em Goiás há poucos dias. Fui visitar o Mosteiro junto com minha amiga Ana Paula. Fiz um pedido especial... ver a casinha onde padre Pedro morou – sim... morou! Ele faleceu há menos de um ano. Nem consigo explicar direito, tamanha minha emoção... a casinha onde ele morou durante décadas, onde ele nunca me permitiu ir, lugar só dele, é todo reforço de sua oração peregrina, de seu hesicasmo. Ao olhá-la de longe, meu coração bateu forte, meu pensamento foi olhar o chão, em cima de uma enorme pedra, várias folhas, mas uma delas era diferente, era ‘a minha folha’! Peguei-a, levei-a para dentro da casa que de tão simples deu-me vergonha de ter bens materiais. No chão não há cama, o colchão é uma tábua e o travesseiro um pedaço de tora de madeira. Coloquei a folha ao lado do tal travesseiro. Orei.



A simplicidade desse mestre ainda me fascina. Morreu igual uma folha que cai da árvore. De manhã levantou-se, fez suas orações com os frades, caminhou pelos seus lugares favoritos, almoçou e morreu diante de seus amigos que o levaram para sua casinha.
Um dia contarei as diversas vezes em que esse tão querido padre apareceu, assim do nada, e me auxiliou em coisas que estavam fora de meu controle... conversas para mais tarde.

Minha arte hesicasta em madeira Pau Brasil deixei , na noite em que me mudei de Goiás, na porta de meu amigo Sebastião Curado, vizinho e irmão de coração. Hoje moro em local onde me é difícil seguir os ensinamentos do hesicasmo, mas preciso de, pelo menos uma vez por semana, passar horas em silêncio profundo, sem importar com os de fora, me importando com O de dentro.


Rita Elisa Seda
Poeta, romancista, cronista, biógrafa, fotógrafa e jornalista.
WWW.ritaelisaseda.com.br
http://www.palavrasdeseda.blogspot.com/

RETIRO DE SILÊNCIO

Eu gosto do silêncio, gosto da solidão. Já se foi o tempo em que eu precisava de uma explicação para esse sentimento. Simplesmente, sou assim. Hoje me questionam a mania de ficar dias e dias sozinha, quieta, sem televisão, sem ler jornal, sem música... até o porteiro do prédio interfona, pergunta se está tudo bem e me aconselha a sair um pouco da 'toca'. Depois desse período de resguardo meus amigos me falam como se eu tivesse perdido um tempo importante na vida. Na verdade, na minha solidão eu ganho mais do que perco, escrevo, leio e penso na vida. As respostas para minha vida... só as encontro no silêncio. Aprendi a praticar meu deserto. Há mais de 10 anos fiz meu primeiro retiro de silêncio. Meu mestre espiritual foi Ignácio Larrañaga. Descobri, nesse retiro, que a oração não é uma troca de favores e nem uma penitência. Oração é, antes de tudo, estar cheia de amor e paz! É viver feliz! E que não devemos procurar Deus, e sim, sentir Deus... porque Ele está dentro de nós. Uma janela abriu-se no porão das minhas idéias.

Depois de alguns anos, precisava de mais respostas. Então, desejei conversar com alguém que fosse anacoreta... verbalizei meu desejo. A resposta veio rápida, no mesmo dia fiquei sabendo de um ermitão que vivia numa montanha no sul de Minas. Soube o nome dele: P.V. (iniciais) e onde morava. Lembro-me bem... já era noite, fui para o quarto, sentei-me na cama, fechei os olhos, relaxei, respirei fundo, pensei... 'P.V. meu nome é Rita Elisa e preciso falar com você'.

Repeti essa frase a noite toda. Não é exagero, não!... Lá pelas 5h30, levantei-me decidida em ir ao sul de Minas. Fui guiando e repetindo em voz alta aquela mesma frase. Cheguei. O dia amanhecia. Parei perto da porteira. Fui até uma casinha branca, olhei pela janela, lá dentro uma mulher lia um livro. Me perguntou o que eu queria. Respondi: 'conversar com o P.V.' . Ela veio até a janela. Sorrindo me informou que ele era anacoreta, não descia da montanha há vários meses, não sabia quando ele apareceria. Desde que ele ficou viúvo fez daquela fazenda um lugar para seus amigos viverem em paz, com casa, horta e criação. Construiu para ele um abrigo no alto da montanha, uma casa simples, passava a noite toda orando, de manhã dormia um pouco na rede, plantava, colhia, cuidava de tudo sozinho. Ninguém tinha permissão para subir a montanha. Olhei dentro da casa e vi um interfone, ela leu meus pensamentos... 'isso ali serve para ele se comunicar conosco, nós nunca ligamos para ele, só em caso de emergência, pra você ter uma idéia a filha e neta dele estiveram aqui dia desses e não ligamos pra ele'. Eu, resignada, agradeci e sai bem devagar. Quase chegando à porteira ouvi um psiu, olhei para trás, a mulher gesticulava me chamando. Voltei. Perguntou o meu nome. Respondi. Ela saiu da janela. Esperei um pouco. Retornou: 'espera um pouco, P.V. acabou de ligar, perguntou se havia alguma Rita Elisa aqui... ele vem te ver'. Meu coração bateu mais forte.

Na minha pequenez algumas dúvidas: como ele ia saber quem eu era?!... aonde eu deveria esperá-lo?!... como ele era?! Aquietei meus pensamentos, não deixei a ansiedade tomar conta. Respirei fundo. Enchi minha alma de paz. Fui para a sombra de um enorme jequitibá. Sentei-me no chão. Fiquei ali por quase uma hora. Levantei-me e fui para a capela. Afinal o P.V. iria conversar comigo na capela, era o mais correto. Num lugar santo. Fiquei na porta. Depois de mais de hora, escutei uma voz ao meu lado: 'Rita Elisa...' Olhei, quase fiquei sem fôlego. Um homem alto, de certa idade. Não posso dizer que sua veste era uma batina ou um hábito. Toda encardida, a barra surrada, desfiada, um cordão marrom de tanto barro, amarrado na cintura. Usava um chapéu de palha com abas largas, preso com barbante. Descalço. Pés empoeirados. Olhei-o nos olhos. Ele sorriu. Me mostrou o jequitibá : 'vamos sentar-nos ali, é melhor, a natureza é um santuário'. Mordi o lábio, envergonhada. Chegando à sombra, ele tirou o chapéu, a cabeça queimada de sol. Ele ungiu minha testa e minha nuca com óleo, junto uma oração em latim. Falou algumas coisas que iam me acontecer, se eu tomasse essa ou aquela decisão. Conversamos. Nos despedimos. Ele completou brincalhão: 'agora posso dormir um pouco... fiquei a noite inteira incomodado, o seu nome toda hora vinha na minha cabeça. Menina... você não deu trégua'. Beijou-me as mãos, colocou o chapéu e saiu devagar. A sensação de paz que me envolveu foi tão grande que até hoje a uso para sossegar minha alma.

Nunca mais vi o anacoreta. Nem sei se continua lá. Tudo que ele me falou aconteceu. Inclusive ele me disse coisas que ri na hora, e depois, muito depois, chorei ao passar por elas. Uma coisa é certa, devemos ter cuidado com o que falamos. Devemos nos calar mais do que falar. Também aprendi que ao oramos podemos ficar num estado de euforia tão grande que oferecemos sacrifícios, dizendo um tudo agüento, como se fosse um tudo posso. Somos humanos. Nem tudo agüentamos, nem tudo podemos. E, Deus, não precisa de sofredores, precisa de vencedores. Cada um deve saber até onde pode ir. Cabe a nós escolher a direção. E... de que forma seguir. Namastê.

Rita Elisa Seda
Crônica publicada no jornal Valeparaibano, quinta-feira, 28 de agosto de 2008.