Até agora estou ‘tentando’ entender o que aconteceu...
A belíssima gabiroba que me fascinou logo na primeira vez em que cheguei até aquele lindo lugar, em plena Serra do Mar, fazendo com que eu ficasse arrepiada, estonteada e procurasse a ‘estória’ da árvore, bem... ela rachou-se ao meio.
Sim... logo depois que resgatei a ‘estória’ (em maio de 2011), que os olhos de todos meus amigos se voltaram para a árvore, que o mistério a respeito da longevidade e da beleza dessa gabiroba veio à tona, em uma noite de lua cheia, há poucos dias (junho de 2011), estalou feio, rompeu-se ao meio, quebrou.
Foi um ‘Deus nos acuda’ para todo lado. A estrada bloqueada pelos enormes galhos que há séculos tocavam o céu com suas bromélias e orquídeas, agora, beijam o chão. Cortar os galhos para liberar a estrada foi única solução.
Não consigo entender este desmando da natureza. Fiquei um bom tempo contemplando metade da árvore caída e a outra, imponente, dizendo ao vento ‘tudo bem... estou viva’.
Algumas surpresas não foram por conta do acaso: no centro da árvore um buraco enorme ficou exposto; um pedaço da pesada madeira foi artisticamente trabalhada pelo Valdinei: ‘Olha dona Rita, estou terminando esse oratório para colocar uma santinha’.
Na vida não conseguimos controlar todas as variáveis e, ainda creio, que há muitas coisas debaixo do céu que nossa vã filosofia desconhece. Já estou no tempo em que algumas explicações não são mais necessárias. Para mim bastou ver um oratório feito do cerne da gabiroba, lugar onde será entronizada Nossa Senhora Aparecida.
Do buraco, no centro da árvore partida, dizem, saiu o lobisomem que há quase dois séculos estava enterrado, ou, quem sabe, saiu o homem purificado de uma maldição e agora vive errante pela mata atlântica.
Um novo ciclo começa. Eu, sem nem mesmo imaginar que um dia a árvore pudesse partir ao meio, dei o título a minha postagem, aqui no blog, de ‘curva de um looping’, deixei escrito no que acredito: ‘Se tentarmos voltar ao espaço do tempo a curva se dobra, fazendo um looping, na verdade a inconsistência é o looping do tempo, o universo tem lá as suas lógicas’.
(todo tempo em que estive, ali, fotografando... um enorme cão cheirava o enorme pé de gabiroba)
Sim... eu tentei voltar à estória e a curva foi traçada com ventos fortes que fazem a travessia de Caronte.
Felicidades e a paz!
Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.
Junho de 2011
As árvores sempre me fascinam. Eu sempre estou à cata de alguma 'estória' sobre árvore, em livros, revistas, jornais, conversas, tv ou rádio. Algo dentro de mim clama por isso... desde que me entendo por gente... se bem que ainda não me entendo!
Creio que nessa busca incessante há muita relatividade com meu pensamento. No caos nasce a luz. Você pode quebrar um ovo, mas nunca mais poderá ordená-lo novamente, mesmo unindo cada pedacinho dele. A desordem das coisas é algo natural. Se tentarmos voltar ao espaço do tempo a curva se dobra, fazendo um looping, na verdade a inconsistência é o looping do tempo, o universo tem lá as suas lógicas.
E é lógico que eu não quero retornar algo que foi destruído, apenas recoloco aqui uma história que me foi contada no domingo, dia primeiro de maio, lá no sítio Nhá Chica.
Vamos por partes.
Primeiro... desde sempre recolho fragmentos históricos, ou devo dizer mesmo... 'estóricos' sobre árvores. Segundo... foi há quase um mês, procurando outro caminho para chegar ao sítio, andei mais 10 km por uma estrada que ainda não conhecia, dessa forma cheguei ao entroncamento que dá acesso ao Nhá Chica por outro lado. Terceiro... foi quando eu avistei a tal árvore. Em um universo paralelo algo sempre grita dentro de mim quando vejo algo que precisa ser registrado. Pulei dentro do carro. Exclamei em voz alta: ‘esta árvore tem estória’! Quarto... parei na casa de Lena e Antônio, amigos de pouca data. Sei que Antônio teria uma explicação para meu sexto sentido. Lena não quis falar no assunto, como ainda não o fez até hoje, Antônio me olhou ressabiado, sem saber se falava ou não. Ficou quieto. Eu insisti que aquela árvore tinha uma 'estória' e que eu precisava saber.
Quinto... foi domingo passado, primeiro dia de maio, depois de levantar o Mastro de Nossa Senhora das Graças no sítio, foi só aí que Antônio resolveu contar a 'estória'. Isso porque eu aticei a curiosidade de minhas amigas que ali estavam, na deixa, conduzi Antônio para uma roda de prosa e, na hora certa, perguntei a respeito da árvore.
Antônio ajudando a levantar o Mastro e soltando foguete.
Daí por diante foi uma 'estória sem fim'... disse ele que é fato verídico, contado pelo pai dele que por sua vez ouviu do avô de Antônio. Isso há muitos e muitos anos. Foi certa feita, período em que as pessoas que moravam ali nas redondezas da Várzea, assustadas, não saíam à noite por causa de um animal que comia o gado. De quando em vez, ouviam um uivo sonoro e vibrante cortando a madrugada. Depois era silêncio mortal. Nem os sapos coaxavam, nem a coruja piava e os grilos calavam-se. Podia-se escutar até mesmo o crepitar da chama de uma vela, por causa do silêncio que se instalava nas redondezas.
Até que certo dia os homens se uniram para pegar o tal bicho louco. A paz precisava ser pelo bem e, não, pelo mal. O silêncio tinha de ser obra da alegria e não do desespero. Os homens saíram juntos, cada um com um lampião ou lamparina, uma espingarda ou um facão, um bentinho costurado com reza de Credo para fechar o corpo, alguns levavam uma cruz de madeira pendurada em cordão fiado em algodão. As mulheres ficaram em casa, em oração.
Saíram em noite de Lua branca, volumosa, estonteante. Rumaram para o pasto. O uivo gélido cortou a noite, os homens continuaram sua caçada. Juntos, o medo desapareceu... mas, o tal bicho apareceu logo na primeira curva, longe, visível. Os estampidos de fogos ecoaram pelo morro, não foi só um tiro, vários deram conta de deixar aquele enorme cão caído na curva.
Chegaram de mansinho, ainda apontando armas. Foram tomados de uma surpresa tremenda, incrédulos olharam o corpo inerte e ensangüentado, de um homem jovem e forte. O levaram até a estrada principal e, ali, em lugar de destaque aos passantes, enterraram o tal homem.
Ao lado do túmulo nasceu um pé de gabiroba. A melhor gabiroba que alguém pode comer, doce como um mel. A árvore tomou corpo em pouco tempo, ficou grande, criou pelos.
Dizem desta estranha árvore que as mulheres que ali sentam à sua sombra logo arrumam marido. Escutei o relato de Agnaldo que confidenciou o segredo de uma velhinha que de vez em quando vai até essa árvore e a beija. Um dia perguntou à velhinha o motivo dela fazer isso... ela respondeu que foi ali que conheceu seu primeiro namorado, o amor da vida dela, seu marido. Se a 'estória' é mística, folclórica ou verídica não me cabe averiguar. Apenas, todas as vezes que passo pela árvore, fica dentro de mim a sensação de abandono, de socorro, de oração e de suspense.
Pé de gabiroba, dizem que tem mais de 200 anos... dizem...
Minhas amigas ouviram toda esta 'estória' pela boca de Antônio, homem que conhece os dizeres dos antigos, que leva a sério as tradições e que tem muitas e muitas outras 'estórias' para contar.
Eu a coloco aqui, em fragmentos, como resgate de um tempo em que as pessoas se uniam em prol do bem comum. Bendito tempo!...
Rita Elisa Seda
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.
Maio de 2011
Cronista, poeta, biógrafa, fotógrafa e pesquisadora.
Maio de 2011



















